MANIFESTO

Os Bonecreiros foram ameaça para uns, foram esperança para outros.
Para nós foi Vida.
Não poderíamos fazer um pacto de morte, para não dar satisfação aos primeiros, para dar consolação aos segundos.
«Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?»
Fomos impotentes para resolver os problemas que tivemos?
Fomos incapazes de triunfar sobre as divergências que nos separaram? Não somos heróis. Assumimo-nos com a nossa impotência e incapacidade nesta primeira etapa, para que seja verdadeiramente uma etapa. Sete meses de vitórias, de erros, de alegrias, de riscos.
Não lamentamos nada. Não acariciamos cadáveres, mansamente, à portuguesa.
Estamos vivos e sabemos que viver é muito perigoso.
Num ambiente em que as solicitações de medriocridade têm a face do amigo que lamenta e se envergonha, convidando ao compromisso para que se mantenha a ilusão, e a face do inimigo que acusa e se regozija, convidando a mentira para que se mantenha o desafio, tivemos a coragem de não pactuar com falsas ilusões nem com desafios fictícios, permanecendo fiéis à seriedade que foi o nosso ponto de partida.
Os Bonecreiros transformaram-se.
Nasceu a Comuna.
Que nos perdoem os que preferem "fantasmas bem educados para adormecerem no seu ombro".
Que nos perdoem os que nos queriam assustados e envelhecidos, arrastando o cadáver dos nossos sonhos por haver - garantia absoluta de que nunca o realizaríamos.

Lisboa, 1 de Maio de 1972

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